Eloi Pires Ferreira: “Não existe cinema fácil, independente da localização”

Imprensa – Eloi Pires Ferreira – Curitiba Zero Grau – O Sal da Terra

Por Jornalismo Cesumar em 03/11/2008

Cineasta avalia panorama cinematográfico paranaense e contextualiza inserção de filmes do Estado na produção nacional

Tathianne Chiquette
Foi em um estágio na Cinemateca de Curitiba, durante a graduação em jornalismo, que Eloi Pires Ferreira, 53, começara a trabalhar com cinema. Em 1990, produziu seu primeiro curta-metragem intitulado  “Vamos Junto Comer Defunto”. Na época, em virtude da ausência de leis de incentivo à sétima arte, o cineasta gastou todo dinheiro que economizara para comprar um apartamento na finalização do curta. Em 1997, produziu o curta-metragem “Valdir & Rute” e, em 2001, o curta “Polaco da Nhanha”. O último trabalho do cineasta, o longa-metragem  “O Sal da Terra” foi exibido  este ano no V Festival de Cinema de Maringá e, recentemente, nas salas de cinema da cidade.

Em entrevista via e-mail ao jornal Matéria Prima, o cineasta abordou a inserção nacional da produção cinematográfica paranaense. Com uma bagagem de 25 anos dedicados ao cinema, Ferreira contextualizou as respostas com experiências cinematográficas e observações pessoais.

O Paraná não faz parte do tradicional circuito cinematográfico nacional, com destaques para os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Como é produzir filmes em um Estado à margem do mercado cinematográfico nacional?
Desde que a atividade cinematográfica foi introduzida no Brasil, há mais de cem anos, os principais centros produtores de cinema do país foram Rio de Janeiro e São Paulo, até porque essas duas cidades, além de concentrarem as maiores populações, sempre foram a grande referência não só na cultura, mas em todas as outras áreas.  Isso, porém, nunca impediu que – também desde os primórdios – houvesse manifestação criativa cinematográfica em outros Estados (com os chamados ciclos), como Pernambuco, Bahia, Minas, Rio Grande do Sul etc. E nesse contexto ancestral de descentralização, o Paraná marcou presença em vários momentos. É lógico que o eixo Rio/S. Paulo, por razões óbvias, continua detendo a hegemonia e deve continuar assim ainda por muito tempo. Mas o cinema, dito fora do eixo cresceu muito em expressão e o Paraná – mesmo com sua tradicional timidez (principalmente política) e seu histórico de altos e baixos – sempre contribuiu e, agora mais do que nunca, contribui de forma muito significativa para com esse avanço da cinematografia nacional.  Nos últimos três anos, além de uma infinidade de curtas, saíram e estão saindo do forno quase dez longas de ficção pra cinema (em película) e o mesmo tanto de longas documentários telefilmes (no suporte digital). Quanto à dificuldade de se produzir à margem, não existe cinema fácil, independentemente da localização geográfica.

Como as produções paranaenses têm participação no mercado brasileiro de cinema?
Quando se fala em mercado, a primeira coisa que pode vir à mente é o circuito comercial convencional de exibição (salas de cinema). Mas cinema, como sinônimo de audiovisual é muito mais que isso e, na atualidade e daqui pra frente cada vez mais, são muitos os meios, as janelas para se chegar ao público (dvd, tv a cabo e aberta, web, celular, espaços alternativos, circuito educativo etc.). Existem vários canais de televisão e programas (Curta Petrobras, por exemplo) aqui e no exterior que compram curtas e documentários. E ao longo dos anos, vários curtas paranaenses foram comercializados nesses espaços. Quanto aos longas, chegamos a um momento de uma grande desova, portanto, ainda é cedo pra diagnosticar, mas algumas experiências estão sendo bem sucedidas, como Conexão Brasil, de Cascavel, com mais de cem mil espectadores  e Estômago já vendido para mais de vinte países. Outros estão iniciando a sua carreira comercial agora, mas com um bom potencial, como O Sal da Terra e Mysterios.

A consolidação do audiovisual no Paraná ocorreu em 1992 com a fundação da Associação de Cinema e Vídeo do Paraná (Avec). Quais são outros mecanismos – institucionais ou não – que privilegiam produções cinematográficas paranaenses?
O processo de consolidação do audiovisual paranaense é anterior à fundação da Avec. Mas a Avec e posteriormente o Siapar – Sindicato das Produtoras (fundado 10 anos depois) foram e estão sendo absolutamente fundamentais no processo (em constante evolução). E, estas duas entidades, além de aglutinar os realizadores em torno da causa e da incessante luta política, obtiveram muitas conquistas. Principalmente, na consolidação de mecanismos que estimulam a produção, como o Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo do Paraná que deve destinar mais de um milhão e meio de reais, anualmente, para produções paranaenses, só para ficar em um exemplo.

O cinema paranaense tem uma identidade expressiva própria? Ou suas temáticas são influenciadas pela diversidade sócio-cultural do Estado?
Dia desses participei de um debate em que se afirmava que não existe um cinema paranaense enquanto movimento estético. O que existe é um cinema feito no Paraná. De fato, e aí devo acrescentar que existe, sim, um movimento político pela contínua consolidação em que muitas vezes a demarcação de território se faz necessário. Quanto às influências temáticas, elas acontecem de forma diversa como diverso é, atualmente, o cinema brasileiro.

Como é produzir filmes sem apoio governamental? E, muitas vezes, inclusive do público que prefere produções cinematográficas internacionais em detrimento das nacionais e estaduais?

Sem apoio do Estado é simplesmente impossível se produzir cinema. Até mesmo o cinema estadunidense recebe apoio indireto do Estado. Cinema é atividade altamente estratégica.  E, “come bola” o poder quando não enxerga isso. Quanto ao público, o cinema comercial mundial está perdendo terreno, até mesmo o hollywoodiano. Público tem que ser conquistado. Mas, felizmente, as coisas não são imutáveis. Vivemos um momento de transformações vertiginosas em todos os campos. E nem o cinema e nem o mercado poderiam ficar imunes.

Quais são as orientações para quem tem interesse em dedicar-se ao cinema?
Antes de qualquer coisa, ver filmes e variando o cardápio – não só em relação ao gênero, forma e conteúdo, mas também à nacionalidade.  Ler tudo o que se refere ao assunto e conversar com quem se interessa pelo assunto (rodadas de discussão em grupo podem ser bem estimulantes). Ah, sim, preparo físico também pode ser bem útil em alguns momentos, principalmente, quando você tiver que correr dos credores. Finalmente, não se iludir muito com o glamour. Cinema é trabalho braçal mesmo. Cadeirinha de diretor é pura ficção. Falando nisso, como cinema é acentuadamente trabalho de equipe, convém lembrar que têm muitas outras funções, além da de diretor.  Dependendo da aptidão, podem ser até mais bacanas.

Publicação Original: Matéria Prima

Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de informática e história e geografia para Ensino Fundamental e médio). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo), Brichos: a floresta é nossa (Tecnokena) ainda em produção. Trabalhou como consultor técnico na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). É assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Contato com a Autor email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: 55 (41) 9962 5010 home page: cordiolli.wordpress.com twitter: twitter.com/marcoscordiolli facebook: marcos cordiolli

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