Gigante: um “A Bela e a Fera” minimalista e sensível
11/26/2009 Deixe um comentário
Por Marcos Cordiolli
A paixão e o desejo estão relacionados ao acaso e ao improvável, como na mitologia da bela e a feraque permeia reincidentemente as artes ocidentais. Na sociedade moderna – com a proliferação de instrumentos de geração de imagem – as possibilidades de acasos são ampliados. Acasos em maior quantidade estão à nossa disposição, embora os alvos-desejos possam ser mais etéreos, distantes e – até mesmo – incomunicáveis.
Em o Gigante, um segurança passa as noites acompanhando pelo monitor do sistema de vigilância eletrônico – solitariamente – os funcionários da limpeza e da manutenção de um supermercado. A solidão da noite se mantém durante o dia passado lentamente em casa e, quando muito, na companhia do sobrinho pré-adolescente. O tempo transcorre arrastado, exceto nos ouvidos, constantemente com fones ligados ao aparelho de som que toca músicas de rock hardcore. A fera segue o seu caminho solitário e (quase) invisível ao mundo.
A bela diante da fera. Uma noite ao acaso, uma bela atravessa o seu olhar. A fera faz-se prisioneiro da bela e passa a seguir compulsivamente os seus passos. A bela, na forma de uma faxineira, responde ao modelo mitológico. Em tudo parece distinta dele… A graciosidade em seus movimentos, o corpo franzino e a elegância casual aparecem em oposição ao corpo robusto, aos movimentos desajeitados e às surradas roupas triviais.
A condução do filme utiliza então recursos preciosos da linguagem cinematográfica. Enquanto a bela é acompanhada em sua graça, leveza, aparente inocência e etérea beleza (como devem ser todas as paixões idealizadas), ele, a fera, expõe a cada sequência uma nova fragilidade. Por um lado, é explosivo quando provocado ou acuado, e tempestivamente usa força (seja com o motorista de táxi deselegante, na defesa do suposto amante da moça e até numa explosão de cólera quando vê a sua amada em perigo). Por outro lado, mostra-se doce (com o sobrinho), solidário e com uma ética peculiar (com outra faxineira flagrada em roubo). Ele, ainda, é frágil sentimentalmente e demonstra uma forma de amor cortês, quase sagrado e, por isso, casto, inclusive prescindindo de sexualidade. O detalhe mais carnal de sua admiração pela moça está em observá-la passar o batom, mas num gesto mais de cuidado de si do que de sedução. Ele, seguramente, ama mais o amor que sente do que a própria moça que ama.
Amando um objeto perfeito. O padrão desta versão contemporânea de a bela e a fera não está no amor impossível. Ela, por ser o objeto perfeito, não ama outro (e o outro, quando aparece, está mais próximo de outra fera do que de qualquer padrão principesco). Ela simplesmente desfila perante os olhos dele, como em sonho. Claro, ele, a fera, desenvolve uma paixão obsessiva e passa a seguir a moça por todos os lados.
Aqui ficamos sem saber se a bela é apenas a imaginação da fera, ou então o diretor errou na mão ao desenhar a personagem com gosto refinado, um tanto distante da imagem que muitos de nós fazemos das faxineiras. Não que faxineiras não possam ser refinadas, mas esta tem uma elegância peculiar, que decorre também de um estilo de vida complexo, o qual se reflete no uso de lan house, na forma como examina as vitrines de moda feminina e, até mesmo, em seus hábitos solitários na praia. Talvez, o diretor tenha traduzido na tela o olhar desejoso da fera.
Uma condução hiperbólica. O filme é conduzido hiperbolicamente, acompanhando a fera em busca da bela. É notável a capacidade do diretor em manter o clima numa película assumidamente minimalista, com poucos diálogos e reduzidos cenários. O filme em si é composto fundamentalmente das expressões faciais do homem. Prescinde de diálogo, mas nem por isso é monótono. Repetem-se cenários e situações similares, mas o espectador permanece com a mesma pergunta “aonde a fera vai ser levada por esse desejo?”
Uma enquete, se pudesse ser realizada neste momento, talvez mostrasse que as apostas se dividiriam entre a tragédia e a felicidade. Percebe-se, então, que o silêncio é a grande metáfora. Pois todo amor de uma fera solitária é sempre calado e secreto, só que no cinema tem um cúmplice: o espectador. Assim, é como todos os desejos secretos e clandestinos do espectador, que também se pergunta para onde vai ser levado por esses sentimentos. Talvez esta seja a magia do filme: ele é um espelho para muitos.
Trailer
Sinopse
Jara (Horacio Camandule) é um tímido segurança de supermercado, que descobre Julia (Leonor Svarcas) pelas câmeras de vigilância. Ela trabalha como faxineira no local e passa a ser acompanhada por Jara. Apaixonado por ela, o segurança passa a conduzir sua vida em torno da rotina de Julia e seu desejo em conhecê-la.
Ficha Técnica
Gigante (Gigante, Uruguai, 2009, 90 minutos). Diretor: Adrián Biniez. Roteirista: Adrián Biniez. Diretor de fotografia: Araudo Hernández Holz. Diretor de arte: Alejandro Castiglioni. Música: Adrián Biniez. Montagem: Fernando Epstein. Som: Daniel Yafalián. Produtor executivo: Augustina Chiarino, Fernando Epstein. Empresa produtora: Ctrl Z Films. Em coprodução: Rizoma Films (Argentina) / Pandora Films (Alemanha) / IDTV (Holanda). Distribuição nacional: Imovision.
Elenco
Horacio Camandule, Leonor Svarcas, Fernando Alonso, Diego Artucio, Fabiana Charlo, Ariel Caldarelli, Andrés Gallo, Federico Garcia, Nestor Guzzini, Esteban Lago, Ernesto Liotti.
Mostras e Premiações
- 59º Festival de Berlim. 2009.
- Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri)
- Prêmio de Obra estreante
- Prêmio Alfred Bauer (de inovação cinematográfica)
- Festival de Gramado. 2009. Prêmio da Crítica.
Outras Publicações:
- Revista Juliete – número 17
- Jornal Bahia on Line



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