CuritibaCultura entrevista o cineasta Eloi Pires Ferreira
10/04/2010 Deixe um comentário
Imprensa – Eloi Pires Ferreira – Curitiba Zero Grau – O Sal da Terra
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Exatamente no momento que eu posto essa entrevista (17h15),estréia no Festival do Rio o filme Curitiba Zero Grau. O longa-metragem dirigido por Eloi Pires Ferreira foi o vencedor do Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo do Paraná – 2008, e conclui sua tarefa de chegar as telas no dia de hoje. Para saber mais sobre o filme, festival e referências, fomos até a casa de Eloi para realizar a entrevista que segue abaixo:
CuritibaCultura: O grande motivo desta entrevista é a estréia do filme Curitiba Zero Grau no Festival do Rio. Eu gostaria que vc falasse sobre o Festival – a importância dele – e sobre essa categoria em que o filme foi classificado.
Eloi Pires Ferreira: Esse no momento é um dos festivais mais importantes do país e, talvez seja no momento, o mais badalado. De maior prestígio no que se refere a mercado, pra quem tá lançando filme, acabou de concluir filme, ou está preparando a distribuição: é uma ótima vitrine pra esse tipo de coisa. Então ele é um festival bem importante, é internacional, vem gente do mundo inteiro participar, assistir, ver o que está rolando aqui. A maior parte dos filmes que estão participando do festival são filmes estrangeiros. Dos filmes brasileiros – eu não sei quantos tem exatamente, nossa produção está bem grande – tem curtas, na categoria de longas tem ficção e documentário e tem a mostra competitiva – que é a mostra principal. Têm também a mostra retrospectiva, que aborda algum autor e tal, e tem essa mostra que se chama Novos Rumos. E na categoria ficção dos filmes dessa mostra (Novos Rumos) tem três filmes só: um de São Paulo, outro do Rio e o nosso.
CC: E quando será a exibição?
Eloi: Ele vai ter três sessões durante a mostra. Uma delas vai ser o que eles chamam de “sessão de gala”, que vai acontecer no dia 04/10 no Cine Odeon, que é um cinema muito legal para se fazer o lançamento de um filme…
CC: Grande?
Eloi: Grande, de grande capacidade, fica na Cinelandia. É um dos remanescentes na Cinelandia, está bem preservado, ótima condição de exibição e tudo mais. A sessão de gala é só para convidados e imprensa. Depois tem mais duas que é para o público pagante, em alguma das vinte salas que estão participando do festival.
CC: Isso demonstra um prestígio?
Eloi: Com certeza. A sessão de gala é só pra filmes das mostras. Outra coisa que é importante: esta será a primeira exibição pública do Curitiba Zero Grau – ele está saindo do forno agora. Esse título do filme faz (Curitiba Zero Grau) um contraponto e ao mesmo tempo uma homenagem ao Rio, 40 Graus , filme de Nelson Pereira dos Santos que é um diretor, cineasta, que eu admiro profundamente. Um dos meus preferidos de todos os cineastas do mundo: Nelson Pereira dos Santos. E ele fez esse filme, o primeiro filme dele, chamado Rio, 40 Graus, em 1955. O filme é seminal, e digamos assim, é o filme que embrionou o Cinema Novo . E o contraponto é que o Rio é 40 graus, Curitiba é zero. O Rio é tropical, é calor, é praia, futebol e carnaval. Curitiba é frio, é uma caverna – uma outra cara de Brasil que será mostrada. Eu acho bacana esse contraponto. Então é um filme que colabora em mostrar a diversidade do Brasil.
CC: Achei interessante essa informação… Já tinha ouvido algo sobre essa associação, mas não dessa forma. Tinha me ligado na música da Fernanda Abreu… E essa homenagem, ou citação: o diálogo acaba no nome ou tem algum outro aspecto?
Elói: Tem nesse sentido que eu te coloquei – um contraponto. As duas são cidades muito diferentes e no entanto fazem parte do mesmo país…
CC: Mas no sentido do que o Nelson Pereira do Santos fez, ele quis mostrar um Rio de Janeiro?
Eloi: A abordagem dele é bem social. Ele mostra uma realidade que não era mostrada até então no cinema. Então o que era o cinema? Cinema era estúdio, aquelas estórias fantasiadas… Então existia um movimento no cinema, que começou na Itália, que se chamava neo-realismo. O que era o neo-realismo? Era o cinema saindo daquele ambiente recluso, fechado, burguês – ou que retratava coisas relacionadas a uma idealização de vida. Esse cinema sai desse gueto e vai pra realidade, mostrando como era a vida na Itália no período pós-guerra. Esse tipo de fazer cinema abriu os olhos das novas gerações de cineastas, naquele período pós-guera, década de 1940, 1950, principalmente – quando o mundo estava em ebulição social. Essa escola, esse movimento chamado neo-realismo provocou outros movimentos: no Brasil foi o Cinema Novo, na França a Nouvelle Vague, que significa a nova onda, um novo jeito de fazer cinema). Na Alemanha também teve o novo cinema alemão…
CC: E foi aí que ele bebeu a influência?
Eloi: Foi. O Nelson Pereira dos Santos fez obras maravilhosas, esse foi o primeiro filme dele. Depois ele fez Rio Zona Norte (1957). Ele fez bastante coisa, coisas legais e coisas ruins também, mas só por dois filmes que ele fez eu boto ele no panteão dos Deuses: Vidas Secas e Memórias do Cárcere. Os dois baseados em literatura (Graciliano Ramos). São filmes de uma consistência – o Vidas Secas de uma forma especial – de uma inventividade sabe, a maneira como ele trabalhou a fotografia, a luz… é um filme altamente inspirador. Eu tenho uma admiração pelo Nelson e gostaria muito que ele estivesse na platéia para assistir o Curitiba Zero Grau. Vou até fazer um convite pra ele…
CC: E qual é o retrato que o Curitiba Zero Grau transmite? Qual é a mensagem principal?
Eloi: Quando eu faço esse paralelo vc tem que levar em consideração algumas coisas… Primeiro esse distânciamento temporal: o Rio 40 Graus retrata uma realidade dos anos 50. O Nelson naquela época fez uma radiografia – digamos assim – social, usando o Rio de Janeiro como microcosmos. O Curitiba Zero Grau – eu não vou comparar os filmes de jeito nenhum, o Rio 40 Graus é uma obra prima, incomparável – é minha homenagem que eu boto aos pés do panteão de forma humilde, agradecendo ao Nelson Pereira dos Santos a tudo o que ele ofereceu para o cinema brasileiro e tudo que eu pude entender daquela fonte. O filme tem esse paralelo, mas deve se ter essa ressalva. Então ele faz essa radiografia social do microcosmos, que eu tento, de alguma forma, fazer também. O que mais me interessa na cidade? É o ser humano, o indivíduo.
CC: O eu e o outro…
Eloi: Sem dúvida. A questão da alteridade e tudo mais. A questão da sobrevivência de cada um e a necessidade do outro que todos nós temos. O que me interessa nos trabalhos que eu tenho feito em cinema é isso, essa busca pelo indivíduo. No Zero Grau eu uso a cidade como microcosmos para o que acontece no mundo, nas relações sociais e entre países também. No Zero Grau são quatro personagens que conduzem a estória, personagens esses que vivem em meio ao trânsito. O que eles tem em comum? Antes de qualquer coisa a cidade – todos são habitantes dessa geografia que tem como tempero o frio. De resto eles são muito diferentes um dos outros, representando camadas sociais diversas. O filme descama a cidade, trabalha com camadas, ele começa – vc vai ver o filme, não quero entrar nisso porque cada um tem que fazer a sua leitura – de cima e vai entrando na cidade, a câmera, o filme, eles vão entrando na cidade, mostrando o que a cidade tem a oferecer aos indivíduos. Isso pode parecer pretensioso… – Porra, quer fazer uma análise e tal… Eu não quero fazer análise sociológica nem nada. Eu quero do meu jeito, ou do nosso jeito (pois tem a colaboração dos companheiros e tal) mexer um pouco nisso, entende? Provocar para essas questões. Não esquecendo também que no cinema, como qualquer outra coisa, vc está partindo das suas ideias, é muito a tua visão. Vc conduz o olhar, está botando coisas que são da tua experiência de vida, da tua observação. O jeito que eu vejo a cidade não é necessariamente o jeito que vc vê, ou que outro vê. É o meu jeito, mas de repente ele pode casar, ou complementar, contrapor outra visão da cidade.
Publicação Original: Blog Curitiba Cultura




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