Tony Manero: clichês grotescos em uma vida dantesca sob a ditadura de Pinochet.
06/01/2011 Deixe um comentário
Por Marcos Cordiolli

O Filme chileno Tony Manero (Tony Manero, Chile, 2008) é um exercício de humor dantesco com traços góticos. Raul, um pseudodançarino cinquentenário, torna-se obsessivo pelos passos de danças de Tony Manero, personagem de John Travolta em “Os Embalos de Sábado a Noite” (Saturday Night Fever, EUA, 1977). Apoiado na devoção de sua namorada, planeja montar uma apresentação, com imitação de sequências do filme, no restaurante da pensão em que moram.
Raul é apático ao resto do mundo, aos desejos da namorada, à proprietária da pensão, a quem atende aos desejos sexuais visivelmente a contragosto, e à situação política do país sob a ditadura de Pinochet. Ocupa as tardes nas salas de cinema gastando os seus parcos recursos para rever o filme de Travolta, observar a coreografia e decorar alguns diálogos. Também está emprenhado em montar o piso de vidro com iluminação inferior para reproduzir a sequência célebre do filme em sua apresentação. Alimenta silenciosamente a pretensão de participar de um popular programa de TV que vai escolher, justamente, o melhor imitador de Tony Manero.
Uma dança dantesca. O dançarino e seu mundo são dantescos. As relações sexuais são dantescas, marcadas pela impotência de Raul e o quadrilátero sexual que estabelece com a namorada, a filha dela e a dona da pensão. O amor da namorada também é dantesco. Conduzida pela admiração e, por outro lado, temperada por forte ciúme em relação à filha, ela reage com fúria diante da ação sedutora de Raul sobre a moça, mas assiste impassível e, no dia seguinte, apenas alerta a filha, também de forma dantesca sob os perigos da gravidez.
O ambiente da pensão é dantesco, onde os demais moradores circulam no ambiente em que está a banheira na qual a namorada banha Raul. É dantesca a utilização de fezes, por Raul, na vingança, pela suposta traição de Goyo, que ele próprio havia traído com a namorada.
O dantesco do dançarino é a redoma do psicopata. Raul mata pessoas de forma violenta para obter as coisas que deseja para realizar a sua obsessão. O requinte de crueldade é expresso na seqüência em que mata uma velha, a quem acabara de ajudar, depois alimenta o gato de estimação da morta, come da comida dela e ainda leva o seu aparelho de televisão em cores, um bem raro à época.
Clichês da indústria cultural pelo mundo. A vida dantesca de Raul é retrato de quanto podem se tornar grotescos os clichês que a indústria cultural fomenta pelo mundo. A reprodução grotesca do discurso de Tony Manero, por Raul, num restaurante de pessoas pobres que desconhecem o filme e que é motivo de riso até para os colegas de espetáculo. Assim como é grotesca a apresentação de Raul no restaurante e dos imitadores de Tony Manero no programa de televisão.
O filme adota ainda um discurso político ao mostrar que a opção de Raul pelo clichê estadunidense é correlato à apatia ao momento da ditadura, que é denunciada pela perseguição violenta aos opositores. Em dois momentos Raul demonstra o distanciamento: quando aproveita para roubar os pertencentes de um militante assassinado pela repressão e quando foge da polícia, que detém o parceiro Goyo e a filha da namorada (com quem manteve um affair na noite anterior). O momento político também é grotesco, retratado na cena em que o apresentador do programa de TV comunica a contratação de uma modelo argentina para atuar ao seu lado como forma de manifestar o fim das tensões beligerantes entre o Chile e Argentina, pelo controle do Canal de Beagle.
E distante do grotesco show de strippers masculinos em Ou Tudo Ou Nada (The Full Monty, de Peter Cattaneo, 1997). Neste filme, trabalhadores desempregados do Reino Unido realizam um show de strippers masculinos. O espetáculo torna-se uma comédia pelo “biótipo” do strippers e pela aceitação do jogo do grotesco como cômico do espetáculo pela platéia.
O interessante uso de imagens sem foco. Sobre os aspectos técnicos, cabe lembrar que o filme é todo captado com câmeras na mão, mas é necessário ressaltar a importância de pelo menos duas sequências com falta de foco com sentido esteticamente definido. Na primeira, Raul observa da janela a conversa de Goyo e dois outros militantes da resistência à ditadura. A imagem fora de foco parece sugerir que Raul não os enxerga em seus objetivos, apenas como alvo de suas ações psicopatas. Em dado momento é o próprio Raul que aparece sob imagens sem foco, sugerindo que ele mesmo não se compreende na situação de tensão em que se encontra.
Tony Manero é um filme que retrata a sociedade chilena da década de 1970 em um ambiente dantesco, ancorado no risível grotesco e na tragédia psicopata: a tradução da ditadura de Pinochet.
Trailler
Sinopse
Raúl Peralta (Alfredo Castro) é fascinado pelo personagem Tony Manero, interpretado por John Travolta no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”. Decidido a vencer um concurso televisivo de imitadores, ele passa o dia treinando. Só que sua obsessão o leva também a revelar seu lado psicopata. [Site Adoro Cinema]
Ficha Técnica
Tony Manero (Tony Manero, Chile, 2008, 97 minutos). Direção: Pablo Larraín. Montagem: Andrea Chignoli. Direção de Fotografia: Sergio Armstrong. Produção: Juan de Dios Larraín. Estúdio: Fabula Produtions / Prodigital. Elenco: Alfredo Castro (Raul Peralta), Paola Lattus (Pauli), Héctor Morales (Goyo), Amparo Noguera (Cony) e Elsa Poblete (Wilma).
Festivais e Premiações
- Festival Internacional de Toronto. 2008. Vencedor: prêmio de Melhor ator (Alfredo Castro). Vencedor: prêmio de melhor filme
- 81º Festival do Oscar. 2009. Filme indicado para representar o Chile.
- Festival de Havana. 2009. Vencedor.Melhor Filme. Vencedor: Melhor Ator (Alfredo Castro).
Publicação Original



Email: marcos.cordiolli@gmail.com
Facebook de Marcos Cordiolli
Siga-me no Twitter


