Irina Palm: uma versão sensível para uma clássica receita de dramalhão.
06/29/2011 Deixe um comentário
Por Marcos Cordiolli
Os melodramas são uma das âncoras da literatura e dos filmes. Um dos modelos típicos, repetidos inúmeras vezes, é o da uma mulher que tem um parente doente e a família não dispõe de recursos para o tratamento. Aparece então uma perspectiva de salvação, mas custa cara e talvez em um país distante. A mulher não tem crédito para empréstimo e nem qualificação para emprego. Entra em desespero diante dessa impotência e decide buscar remuneração de forma pouco ou nada recomendada moralmente: algum tipo de prostituição. Ela então sofre moralmente com as pessoas malvadas desses ambientes, geralmente, clandestinos. Também sempre aparecem vizinhas fofoqueiras e um parente que descobre a situação da mulher, elementos estes que introduzem mais tensão na história. Mas, ao final tudo fica bem. Além de conseguir dinheiro, ela também acaba encontrando um grande amor.
Este modelo convencional explorado ao extremo em filmes de cinema e TV teve uma versão, sensível e significativa, num filme belga, ambientado dramaturgicamente em Londres.
A vítima é o neto de Maggie, uma viúva cinquentona. Em busca de emprego, ela resolve se candidatar, ingenuamente, ao anúncio de atendente numa casa de prostituição no Soho, centro da cidade. Só que o tipo de atendimento é inusitado. Masturbar homens que colocam seus pênis através de um orifício (sic) numa parede e assim recebem o serviço sem ver a prestadora. Maggie teve um casamento regrado e possui apenas uma leve noção dos prazeres que os homens têm com o estimulo manual. O astuto dono da casa (Miki) percebe que ela tem uma qualidade que outras moças jovens e sensuais não têm: mãos macias. Miki, que em conformidade com o clichê é um imigrante do leste europeu, determina que uma de suas funcionárias mostre o trabalho para a novata. A moça – também afinada com o clichê – é uma mulher que apanhava do ex-marido e está nesta vida para manter o filho pequeno. Mas ela se mostra uma professora gentil e apoia a senhora em sua nova vida.
Inusitadamente, a vovó é eficiente. Homens fazem fila, ela se torna a estrela do lugar e seu nome artístico, Irina Palm, vira uma lenda na cidade. Trabalha tanto que fica doente com uma lesão de esforço repetitivo, denominada acertadamente “doença do pênis”. Desperta o interesse das casas concorrentes e provoca a demissão da amiga e “professora”, que ficou sem trabalho em virtude da preferência absoluta da freguesia por Irina.
Uma dramaticidade risível. O desempenho elegante de Marianne Faithfull garante credibilidade à personagem, mantendo sempre a aura de vovozinha recatada, seja quando, profissionalmente, atende aos clientes ou quando freqüenta um pub com a sua colega de trabalho. O ponto alto é o dialogo em que ela se autorreferencia como “vovó punheteira”.
A trilha musical composta por acordes pesados e pontuais garante a qualidade excepcional das cenas de passagem que separam os dois mundos de Maggie. Nessas cenas, Maggie parte para o trabalho de seu bucólico bairro residencial, sob o olhar de suspeição das vizinhas, rumo ao centro da cidade, um outro mundo complexo e estranho. Os acordes dissonantes de guitarra garantem a estas belas sequências uma atmosfera de terna e profunda melancolia.
As cenas de masturbação não-explícitas, de uma dramaticidade risível, são engenhosamente filmadas e montadas. A seqüência que mostra o prazer dos clientes recebendo o “serviço” de Irina é espetacular. Filmada ao alto e montada como um balé grotesco, é uma maneira elegante e refinada de traduzir o prazer masculino numa de suas formas mais automáticas e industrializadas.
Um filme belga que traduz a Europa. “Irina Palm” é um filme no mínimo curioso por mostrar o poder do cinema em refazer criativamente enredos banais e povoados de clichês. Mas também é mais do que isto, É uma ótima especulação sobre quais seriam os limites entre valores morais e a imposição da vida para a sobrevivência.
Talvez esse filme Belga, que conta com apoio de vários fundos públicos de financiamento cinematográfico da Europa Ocidental e Central, apresente-se como um poético chamado sobre a exploração sexual das belas, mas desesperadas, jovens que vêm da Europa Oriental (assim como da África e América Latina). As Irinas Palms que se espalham pela Europa são tão vizinhas e tão vítimas quanto as desesperadas vovós Maggie.
Uma última curiosidade: Marianne Faithfull é atriz, cantora e compositora. Como cantora, gravou e promoveu com sucesso As Tears Go By, em 1964, dos até então desconhecidos Mick Jagger e Keith Richards.
Sinopse: Maggie, viúva cinquentona, precisa arranjar dinheiro para o caro tratamento médico do neto, que tem uma doença grave. Vagando desesperada pelas ruas do Soho londrino, ela depara com um aviso na porta do clube privê Sexy World: “procura-se recepcionista”. Firme em seu propósito, Maggie se apresenta e ganha o posto. Com a ajuda da colega Luisa, ela rapidamente aprende as manhas da profissão, tornando-se a sedutora Irina Palm, a estrela mais lucrativa e procurada do clube. Mas sua vida dupla logo suscita a desconfiança do filho e as fofocas dos vizinhos (catálogo da 31a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo).
Ficha Técnica
Irina Palm (Irina Palm, Bélgica-Luxemburgo-Inglaterra-Alemanha-França, 2007, 103 min). Direção: Sam Garbarski. Roteiro: Sam Garbarski, Martin Herron e Philippe Blasband. Produção: Sébastien Delloye, Diana Elbaum e Georges van Brueghel. Música: Ghinzu. Direção de fotografia: Christophe Beaucarne. Direção de arte: Regine Constant, Véronique Sacrez e Karen Wakefield. Figurino: Anushia Nieradzik. Montagem: Ludo Troch. Estúdio: Ipso Facto / Pallas Film / Liaison Cinématographique / Entre Chien et Loup / Les Films du Plat Pays / Samsa Film S.a.r.l.
Elenco: Marianne Faithfull (Maggie “Irina Palm”), Miki Manojlovic (Mikky), Kevin Bishop (Tom), Siobhan Hewlett (Sarah), Dorka Gryllus (Luisa), Jenny Agutter (Jane), Corey Burke (Ollie), Meg Wynn Owen (Julia), Flip Webster (Edith).
Festivais e Premiação:
- Festival de Berlim: indicação melhor filme.
- Marianne Faithfull: European Film Awards indicação de melhor atriz.
- Miki Manojlovic: European Awards, indicação de melhor ator.
Trailer



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