Incêndios: uma viagem pelo labirinto sombrio do passado

Incêndios: uma viagem pelo labirinto sombrio do passado

Por Marcos Cordiolli

Algumas pessoas escondem o seu passado em tentativas desesperadas para esquecê-lo. No entanto, em algum momento é preciso revirar o passado, mesmo depois que a vida termina. Em Incêndios (Incendies, Canadá, 2010, 130 min) uma mulher deixa para o casal de filhos, ambos de origem libanesa mas crescidos no Canadá, a incumbência firmada em testamento de encontrar o pai que julgavam morto, além de um terceiro irmão, do qual desconheciam a existência. A mãe ainda afirma que é portadora de uma grande desonra e que, por isso, deve ser enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Apenas quando o seu filho for reencontrado ela poderá superar a desonra e ganhar uma lápide sobre a sua sepultura. A filha assume a tarefa, ao passo que o rapaz a rejeita. A filha, estudante de Matemática Pura, abandona o mundo das idéias e parte para outro mundo, estranho, complexo e real. Inicia uma viagem no escuro, pelo Líbano atual, para revolver as feridas da guerra civil dos anos 1970 e encontrar o passado de sua mãe, que ela desconhece completamente.

“Incêndios” consegue manter a atenção do espectador narrando a história em dois períodos temporais distintos, ainda assim, cada um deles não-linear. O fio condutor desta história de Denis Villeneuve nos conduz a abruptas alterações de percurso. O filme é dividido em capítulos e a cada um deles impõe dinâmicas próprias, quase autônomas, um exemplo de roteiro bem construído e com propósitos bem definidos.

Imagens de dura forma poética. A história da guerra civil no Líbano, em particular no sul do país, é complexa, mas as imagens poderosas do filme traduzem-na em sua profundidade, em imagens de dura forma poética. Algumas das cenas e sequências são antológicas. Eu citaria ao menos as seguintes: o olhar de desespero ante a visão do orfanato destruído, a da prostração diante do ônibus incendiado, a frieza do franco-atirador e o desolamento diante da tortura final na prisão. É uma importante demonstração de como o cinema pode fazer poesia com a dura realidade de certos momentos da história.

O filme relaciona mais de uma dezena de situações históricas. Também tem por base um roteiro de teatro do libanês Wajdi Mouawad e a assistente de produção, Sarah Kaskas, libanesa sobrevivente de bombardeios em Beirute.

Pequenas lacunas podem ser apontadas, como a forma ingênua com que a garota parte para Líbano, ou a conversa que soa falsa entre ela e seu orientador matemático. O desfecho final também pode ser contestado, como se fosse obra de um demiurgo, neste caso sádico, da história.

A mesma guerra que separa, também une. A guerra separa e frustra muitos sonhos, mas em Incêndios, de uma forma mais dura que em “Retratos da Vida” (Lês uns, lês otres, de Claude Lelouch) também pode reunir. O final surpreendente pode decepcionar, pois acasos que até seriam possíveis na vida real, no cinema, podem parecer excessivamente clichês. Mas coroa uma história poderosa e bem contatada. Um tributo ao cinema narrativo.

Trailer

Ficha Técnica

Incêndios (Incendies, Canadá, 2010, 130 min). Diretor: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve. Roteiro da obra teatral: Valérie Beaugrand-Champagne e Wajdi Mouawad. Direção de Fotografia: André Turpin. Produção: Kim McCraw, Luc Déry. Trilha Sonora: Grégoire Hetzel. Estúdio: micro_scope . Distribuidora: Imovision.

Elenco: Lubna Azabal (Nawal Marwan), Mélissa Désormeaux-Poulin (Jeanne Marwan), Maxim Gaudette (Simon Marwan), Rémy Girard (Notary Jean Lebel), Abdelghafour Elaaziz (Abou Tarek), Allen Altman (Notary Maddad).

Festivais & Premiações

Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.

Sinopse

Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) são irmãos gêmeos e acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal). Eles vão ao escritório do notário Jean Lebel (Rémy Girard) para saber do testamento deixado por ela. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles. Apenas após a entrega de ambos é que Jeanne e Simon receberão um envelope endereçado a eles e será possível colocar uma lápide. Só que Jeanne e Simon nada sabem sobre a existência de um irmão e acreditavam que seu pai estava morto. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até a Palestina. [site AdoroCinema]

Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de informática e história e geografia para Ensino Fundamental e médio). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo), Brichos: a floresta é nossa (Tecnokena) ainda em produção. Trabalhou como consultor técnico na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). É assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Contato com a Autor email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: 55 (41) 9962 5010 home page: cordiolli.wordpress.com twitter: twitter.com/marcoscordiolli facebook: marcos cordiolli

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.944 other followers