Incêndios: uma viagem pelo labirinto sombrio do passado
07/26/2011 Deixe um comentário
Incêndios: uma viagem pelo labirinto sombrio do passado
Por Marcos Cordiolli
Algumas pessoas escondem o seu passado em tentativas desesperadas para esquecê-lo. No entanto, em algum momento é preciso revirar o passado, mesmo depois que a vida termina. Em Incêndios (Incendies, Canadá, 2010, 130 min) uma mulher deixa para o casal de filhos, ambos de origem libanesa mas crescidos no Canadá, a incumbência firmada em testamento de encontrar o pai que julgavam morto, além de um terceiro irmão, do qual desconheciam a existência. A mãe ainda afirma que é portadora de uma grande desonra e que, por isso, deve ser enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Apenas quando o seu filho for reencontrado ela poderá superar a desonra e ganhar uma lápide sobre a sua sepultura. A filha assume a tarefa, ao passo que o rapaz a rejeita. A filha, estudante de Matemática Pura, abandona o mundo das idéias e parte para outro mundo, estranho, complexo e real. Inicia uma viagem no escuro, pelo Líbano atual, para revolver as feridas da guerra civil dos anos 1970 e encontrar o passado de sua mãe, que ela desconhece completamente.
“Incêndios” consegue manter a atenção do espectador narrando a história em dois períodos temporais distintos, ainda assim, cada um deles não-linear. O fio condutor desta história de Denis Villeneuve nos conduz a abruptas alterações de percurso. O filme é dividido em capítulos e a cada um deles impõe dinâmicas próprias, quase autônomas, um exemplo de roteiro bem construído e com propósitos bem definidos.
Imagens de dura forma poética. A história da guerra civil no Líbano, em particular no sul do país, é complexa, mas as imagens poderosas do filme traduzem-na em sua profundidade, em imagens de dura forma poética. Algumas das cenas e sequências são antológicas. Eu citaria ao menos as seguintes: o olhar de desespero ante a visão do orfanato destruído, a da prostração diante do ônibus incendiado, a frieza do franco-atirador e o desolamento diante da tortura final na prisão. É uma importante demonstração de como o cinema pode fazer poesia com a dura realidade de certos momentos da história.
O filme relaciona mais de uma dezena de situações históricas. Também tem por base um roteiro de teatro do libanês Wajdi Mouawad e a assistente de produção, Sarah Kaskas, libanesa sobrevivente de bombardeios em Beirute.
Pequenas lacunas podem ser apontadas, como a forma ingênua com que a garota parte para Líbano, ou a conversa que soa falsa entre ela e seu orientador matemático. O desfecho final também pode ser contestado, como se fosse obra de um demiurgo, neste caso sádico, da história.
A mesma guerra que separa, também une. A guerra separa e frustra muitos sonhos, mas em Incêndios, de uma forma mais dura que em “Retratos da Vida” (Lês uns, lês otres, de Claude Lelouch) também pode reunir. O final surpreendente pode decepcionar, pois acasos que até seriam possíveis na vida real, no cinema, podem parecer excessivamente clichês. Mas coroa uma história poderosa e bem contatada. Um tributo ao cinema narrativo.
Trailer
Ficha Técnica
Incêndios (Incendies, Canadá, 2010, 130 min). Diretor: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve. Roteiro da obra teatral: Valérie Beaugrand-Champagne e Wajdi Mouawad. Direção de Fotografia: André Turpin. Produção: Kim McCraw, Luc Déry. Trilha Sonora: Grégoire Hetzel. Estúdio: micro_scope . Distribuidora: Imovision.
Elenco: Lubna Azabal (Nawal Marwan), Mélissa Désormeaux-Poulin (Jeanne Marwan), Maxim Gaudette (Simon Marwan), Rémy Girard (Notary Jean Lebel), Abdelghafour Elaaziz (Abou Tarek), Allen Altman (Notary Maddad).
Festivais & Premiações
Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.
Sinopse
Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) são irmãos gêmeos e acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal). Eles vão ao escritório do notário Jean Lebel (Rémy Girard) para saber do testamento deixado por ela. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles. Apenas após a entrega de ambos é que Jeanne e Simon receberão um envelope endereçado a eles e será possível colocar uma lápide. Só que Jeanne e Simon nada sabem sobre a existência de um irmão e acreditavam que seu pai estava morto. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até a Palestina. [site AdoroCinema]




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