Naufrágio, de Pedro Aguilera: uma missão em uma terra e um tempo de passagem

Por Marcos Cordiolli

Um jovem africano é encontrado em condições físicas muito debilitadas entre as salinas próximas ao mar, na costa da Espanha. É o momento de chegada de Robinson à Europa para vingar a morte do pai. O personagem é abertamente tributário à obra de Daniel Defoe, mas este Robinson moderno é diferente: deixa-se naufragar, e não procura “civilizar” os “sextas-feiras” nativos que o acolhem. Ele se comporta como um Odisseu que aposta na dissimulação e no silêncio para vencer os perigos de sua jornada.

Robinson, em sua trajetória, convive com duas comunidades. Uma é de negros francófonos, na área litorânea, que o acolhem e o ajudam numa clara disposição de solidariedade étnica – nada perguntam e nada cobram… A segunda comunidade é de espanhóis, no interior do país, com quem estabelece outras relações de acolhimento: o dono da pensão em que vive arruma-lhe emprego e leva-o para caçadas e para o bar, mas é um racista convicto que considera os negros inferiores e não tem o menor pudor em manifestar a sua opinião; Um colega de trabalho que toma-o como companheiro de baladas e até se dispõe a dividir com Robinson a sua bela namorada; O filho da dona da pensão, um jovem gay, amargurado com o padrasto e com a vida interiorana, e que tenta seduzi-lo. Mas não perguntam e nem cobram nada. Ele é mais um passageiro. Contrapartes da representação simbólica em relação ao migrante ilegal africano.

A família européia na sala de jantar. As sequências da sala de jantar são particularmente belas e importantes. Expressam que a diversidade não é apenas entre estabelecidos e migrantes, pois a família de espanhóis é formada também por estranhos entre si, que convivem juntos, mas não compartilham de relações de identidade.  O padrasto, a mãe e o filho têm como único ponto de contato a reunião diária para o jantar. Numa bela expressão das diferenças entre as pessoas que convivem sob mesmo teto, mas que não conseguem manter condições básicas de interação, além daquelas das necessidades da vida cotidiana.

O último jantar é apresentando com um enquadramento simbólico, com parte da sequência emoldurada pela janela, apresentando o quadro da “sagrada” família européia contemporânea. Mostra uma sociedade com duas medidas: [a] as relações de tolerância com o estrangeiro, mas com o racismo explicitado verbalmente; [b] as relações de intolerância entre os europeus, explicitado na violência simbólica e física do machismo do pai em relação a esposa e o enteado gay.

Dispersão e clichês acentuados nas personagens. Os personagens e a teia de relações que estabelecem entre si, na segunda fase do filme, são elaborados a partir de alguns clichês – que soam com certa falsidade – e com pequenos excessos. A estratégia funciona para acentuar simbolicamente as contradições na sociedade contemporânea européia, mas provoca pequenas turbulências na narrativa.

O andarilho é o personagem diferente, mas parece pouco justificado, inclusive pela função que exerce nesta parte do filme. É o clichê do marginalizado, mas desfruta de estranha inclusão na comunidade local com reconhecimento de sua condição.

Robinson: uma narrativa minimalista. Robinson é passivo diante de todos, mantém o foco na meta a ser alcançada. O jovem é calado, extremamente sucinto ao falar e lacônico ao expressar emoções. Expressa a invisibilidade diante daqueles que mergulham em outro mundo, mas sabem que não são de lá, que não tem nada lá, que as suas raízes não estão lá.

Quando percebido e ameaçado, porém, sua postura não é passiva. Robinson expõe agressividade em defesa da sobrevivência. Para ele, este mundo, que não é o seu, é apenas de passagem, cuja única tarefa é a de sobreviver enquanto procura a porta de retorno. O tempo presente para Robinson parece ser apenas um hiato entre o passado e o futuro que deseja ardentemente.

Algumas seguências e planos longos do personagem calado e lacônico garantem um excelente fluxo minimalista ao filme. Uma forma interessante de representar este tempo metafórico da transição entre o presente e o passado. Nesta perspectiva, o roteiro e a linguagem cinematográfica são destacáveis por manter uma relação adequada entre a personagem central em fluxo minimalista, mas em convivência com pessoas em outros ritmos dramáticos.

A África e a Europa, como a água e o azeite. Robinson deixa-se guiar por um oráculo típico das regiões subsaarianas, que supostamente o conduziria até o assassino do pai, para encontrá-lo e matá-lo. Condição esta para que filho e pai possam novamente se reunir. Estranhas convulsões periódicas fortalecem a relação do jovem como o sagrado, como se ele estivesse sendo cobrado por forças invisíveis, e por uma chama que brota em sua mão quando está numa cachoeira – o espaço mais próximo de ser o seu lugar original, em particular, porque esses locais são sagrados nas religiões dos povos iorubas, de onde parece ser a comunidade de Robinson.

A condução da personagem pela motivação sobrenatural é tratada eficientemente no filme, pois mostra o jovem praticando o seu ritual solitário. E o final surpreende ao sugerir que Robinson talvez seja apenas a crença que alimenta a imaginação do jovem. Nem mesmo a chama que brota de sua mão, na cena à beira do regato, pode ser tomada como real.

A passagem de Robinson pela Europa, guiado por seu imaginário africano subsaariano apresenta as distinções entre dois mundos que têm dificuldade em se reconhecer e interagir, como a água e o azeite.

Trailer

Sinopse oficial

Robinson naufraga frente às costas da Espanha. Com dificuldade, consegue chegar à areia e salvar a vida. É um ser anônimo e um proscrito, mas não como o resto dos imigrantes subsaarianos. A mente de Robinson está recheada de vozes, espíritos que o confundem e o governam. Para se liberar deles terá que cumprir uma missão: matar um homem.

Ficha Técnica

Naufrágio (Naufragio, Espanha / Alemanha, 2010, 95 min.). Escrito e dirigido por Pedro Aguilera. Produção: José María Lara e Michael Eckelt. Música: Walkerland. Cinefotografia: Arnau Valls Colomer. Montagem: Julia Juániz. Direção de Arte: Juan Carlos Bravo. Figurino: Saioa Lara. Distribuidor: Alokatu.

Elenco: Solo Tour (Robinson), Kanda Uranga (Angel Jesus) INAK Irastorza (Paulina), Alex Murphy (Daniel), Julio Dodger (Joseph), Ruth Armas (Rosa), Ramon Barea (Luis Miguel), Carlos Bravo (Grimal).

Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de informática e história e geografia para Ensino Fundamental e médio). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo), Brichos: a floresta é nossa (Tecnokena) ainda em produção. Trabalhou como consultor técnico na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). É assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Contato com a Autor email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: 55 (41) 9962 5010 home page: cordiolli.wordpress.com twitter: twitter.com/marcoscordiolli facebook: marcos cordiolli

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