Naufrágio, de Pedro Aguilera: uma missão em uma terra e um tempo de passagem
07/26/2011 Deixe um comentário
Por Marcos Cordiolli
Um jovem africano é encontrado em condições físicas muito debilitadas entre as salinas próximas ao mar, na costa da Espanha. É o momento de chegada de Robinson à Europa para vingar a morte do pai. O personagem é abertamente tributário à obra de Daniel Defoe, mas este Robinson moderno é diferente: deixa-se naufragar, e não procura “civilizar” os “sextas-feiras” nativos que o acolhem. Ele se comporta como um Odisseu que aposta na dissimulação e no silêncio para vencer os perigos de sua jornada.
Robinson, em sua trajetória, convive com duas comunidades. Uma é de negros francófonos, na área litorânea, que o acolhem e o ajudam numa clara disposição de solidariedade étnica – nada perguntam e nada cobram… A segunda comunidade é de espanhóis, no interior do país, com quem estabelece outras relações de acolhimento: o dono da pensão em que vive arruma-lhe emprego e leva-o para caçadas e para o bar, mas é um racista convicto que considera os negros inferiores e não tem o menor pudor em manifestar a sua opinião; Um colega de trabalho que toma-o como companheiro de baladas e até se dispõe a dividir com Robinson a sua bela namorada; O filho da dona da pensão, um jovem gay, amargurado com o padrasto e com a vida interiorana, e que tenta seduzi-lo. Mas não perguntam e nem cobram nada. Ele é mais um passageiro. Contrapartes da representação simbólica em relação ao migrante ilegal africano.
A família européia na sala de jantar. As sequências da sala de jantar são particularmente belas e importantes. Expressam que a diversidade não é apenas entre estabelecidos e migrantes, pois a família de espanhóis é formada também por estranhos entre si, que convivem juntos, mas não compartilham de relações de identidade. O padrasto, a mãe e o filho têm como único ponto de contato a reunião diária para o jantar. Numa bela expressão das diferenças entre as pessoas que convivem sob mesmo teto, mas que não conseguem manter condições básicas de interação, além daquelas das necessidades da vida cotidiana.
O último jantar é apresentando com um enquadramento simbólico, com parte da sequência emoldurada pela janela, apresentando o quadro da “sagrada” família européia contemporânea. Mostra uma sociedade com duas medidas: [a] as relações de tolerância com o estrangeiro, mas com o racismo explicitado verbalmente; [b] as relações de intolerância entre os europeus, explicitado na violência simbólica e física do machismo do pai em relação a esposa e o enteado gay.
Dispersão e clichês acentuados nas personagens. Os personagens e a teia de relações que estabelecem entre si, na segunda fase do filme, são elaborados a partir de alguns clichês – que soam com certa falsidade – e com pequenos excessos. A estratégia funciona para acentuar simbolicamente as contradições na sociedade contemporânea européia, mas provoca pequenas turbulências na narrativa.
O andarilho é o personagem diferente, mas parece pouco justificado, inclusive pela função que exerce nesta parte do filme. É o clichê do marginalizado, mas desfruta de estranha inclusão na comunidade local com reconhecimento de sua condição.
Robinson: uma narrativa minimalista. Robinson é passivo diante de todos, mantém o foco na meta a ser alcançada. O jovem é calado, extremamente sucinto ao falar e lacônico ao expressar emoções. Expressa a invisibilidade diante daqueles que mergulham em outro mundo, mas sabem que não são de lá, que não tem nada lá, que as suas raízes não estão lá.
Quando percebido e ameaçado, porém, sua postura não é passiva. Robinson expõe agressividade em defesa da sobrevivência. Para ele, este mundo, que não é o seu, é apenas de passagem, cuja única tarefa é a de sobreviver enquanto procura a porta de retorno. O tempo presente para Robinson parece ser apenas um hiato entre o passado e o futuro que deseja ardentemente.
Algumas seguências e planos longos do personagem calado e lacônico garantem um excelente fluxo minimalista ao filme. Uma forma interessante de representar este tempo metafórico da transição entre o presente e o passado. Nesta perspectiva, o roteiro e a linguagem cinematográfica são destacáveis por manter uma relação adequada entre a personagem central em fluxo minimalista, mas em convivência com pessoas em outros ritmos dramáticos.
A África e a Europa, como a água e o azeite. Robinson deixa-se guiar por um oráculo típico das regiões subsaarianas, que supostamente o conduziria até o assassino do pai, para encontrá-lo e matá-lo. Condição esta para que filho e pai possam novamente se reunir. Estranhas convulsões periódicas fortalecem a relação do jovem como o sagrado, como se ele estivesse sendo cobrado por forças invisíveis, e por uma chama que brota em sua mão quando está numa cachoeira – o espaço mais próximo de ser o seu lugar original, em particular, porque esses locais são sagrados nas religiões dos povos iorubas, de onde parece ser a comunidade de Robinson.
A condução da personagem pela motivação sobrenatural é tratada eficientemente no filme, pois mostra o jovem praticando o seu ritual solitário. E o final surpreende ao sugerir que Robinson talvez seja apenas a crença que alimenta a imaginação do jovem. Nem mesmo a chama que brota de sua mão, na cena à beira do regato, pode ser tomada como real.
A passagem de Robinson pela Europa, guiado por seu imaginário africano subsaariano apresenta as distinções entre dois mundos que têm dificuldade em se reconhecer e interagir, como a água e o azeite.
Trailer
Sinopse oficial
Robinson naufraga frente às costas da Espanha. Com dificuldade, consegue chegar à areia e salvar a vida. É um ser anônimo e um proscrito, mas não como o resto dos imigrantes subsaarianos. A mente de Robinson está recheada de vozes, espíritos que o confundem e o governam. Para se liberar deles terá que cumprir uma missão: matar um homem.
Ficha Técnica
Naufrágio (Naufragio, Espanha / Alemanha, 2010, 95 min.). Escrito e dirigido por Pedro Aguilera. Produção: José María Lara e Michael Eckelt. Música: Walkerland. Cinefotografia: Arnau Valls Colomer. Montagem: Julia Juániz. Direção de Arte: Juan Carlos Bravo. Figurino: Saioa Lara. Distribuidor: Alokatu.
Elenco: Solo Tour (Robinson), Kanda Uranga (Angel Jesus) INAK Irastorza (Paulina), Alex Murphy (Daniel), Julio Dodger (Joseph), Ruth Armas (Rosa), Ramon Barea (Luis Miguel), Carlos Bravo (Grimal).




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