Singularidades de uma rapariga loura: um diálogo impar entre literatura e cinema.

Por Marcos Cordiolli

“Singularidades de uma rapariga loura” é mais um curioso filme de Manoel de Oliveira, que utiliza uma diacronia incomum. Baseado em conto de Eça de Queiroz, narra a história de Macário, rapaz ao mesmo tempo hóspede e empregado de um velho tio, que um dia cai de amores por uma moça da vizinhança. Como não poderia deixar de ser, Macário e a moça se apaixonam, namoram e marcam casamento. Sem maiores explicações, porém, o tio se opõe à união e demite o sobrinho. Macário, firme no propósito de conseguir condições materiais para desposar a moça, parte para uma temporada na África e, no ritmo trágico dos contos de Eça, sofre novo revés financeiro.

A moça é paciente, o rapaz nem tanto. Como em todo bom conto, tem-se uma história que se desenrola explicitamente ao leitor (neste caso ao espectador) para ser surpreendido por um final inesperado, fruto de outra história que desvela nova trama invisível e cujas pistas estão dissimuladas ao longo da narrativa.

A diacronia. A sequência inicial é ambientada em um ônibus moderno com ar- condicionado, quando Macário inicia a narrativa de sua tragédia a uma companheira de viagem, que na obra literária original ocorre em uma carruagem. E aqui a famosa expressão presente ao pé da letra na obra literária e na cinematográfica: “O que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-o a um estranho”.

Os primeiros três quartos do filme são um exercício de diacronia em que tudo se parece com Portugal no período da obra escrita por Eça, publicada originalmente em 1874: a linguagem falada, os simbolismos do amor e as formas de trabalho. O discurso cinematográfico utiliza de recursos que seriam correspondentes na tela as características estéticas da literatura portuguesa do final do século XIX, com planos longos e estáticos, em particular deste conto que é recorrentemente reconhecido como de inauguração da literatura realista lusitana. A cenografia também reproduz os elementos de época como os figurinos, mobiliários, objetos e cenários. As ruas são de pessoas se reconhecem vivendo em comunidade. Os personagens correspondem ao final do século XIX e diretamente destacados da obra literária original. Mas nessa fase da narrativa são apresentadas referências a tempos posteriores, como a obra de Fernando Pessoa e ao governo do ditador Salazar.

Quando Macário finalmente consegue o seu intento – a benção do tio e as condições para casar com a moça – a narrativa volta ao século XXI. A cenografia e os figurinos são contemporâneos. A câmera ganha movimento. A cidade é preenchida pela multidão.

As particularidades geniais de um filme emblemático. O diacronismo de Manoel de Oliveira é um instrumento eficaz que pode remeter ao discurso romântico de Portugal, que vivia estável num passado e acorda na tragédia da União Européia. Pode também oferecer uma crítica neorrealista ao simbolismo dos temores e às chagas morais que se tornam invisíveis com o anonimato que a multidão urbana propicia. Então a beleza da amada, arquetipicamente universalizada na imagem de Julieta, pode esconder algo grave, como Buñuel o fez mais radicalmente em A Bela da Tarde.

Manoel de Oliveira se dá ao direito de fazer filmes ímpares. A longa seqüência de “Um filme Falado” em que personagens conversam em cinco línguas diferentes é um desses exemplos marcantes na obra deste português que já rompeu a barreira de cem anos e continua como um cineasta ativo. Ou então a peculiar estrutura narrativa de “Non, ou a Vã Glória de Mandar” na qual filosofia, história e identidade nacional portuguesa são “escovadas a contrapelo” em uma experiência cinematográfica peculiar.

Em “as singularidades…” os planos longos são notáveis. O primeiro é a seqüência em que o casal está na mesa de jogo, tendo ao fundo o recital de um poema de Fernando Pessoa. E que também esconde as chaves para o enigma que só será revelado no fim. O segundo é a seqüência da escada, em que os convidados são vistos pelas costas, num espelho, como se fossem uma moldura, e ao chegar parecem invadir o ambiente, pela proximidade da câmera com eles.

As louras de Eça e Oliveira. O conto de Eça de Queiroz é obra importante no realismo literário português e, simbolicamente, é do período em que a virtude das mulheres estava sob suspeição na contraditória sociedade portuguesa, que cultivava publicamente o moralismo conservador cristão, mas tolerava as pseudoclandestinas transgressões. É interessante que a chaga moral da Rapariga Loura não é sexual, mas de uma ordem psicológica mais complexa e afinada com as teorias de Freud, que já estavam sendo elaboradas, em Viena, mas ainda não publicadas.

Manoel de Oliveira mantém a mesma narrativa do conto de Eça. Usa alguns bons artifícios, como um poema de Pessoa e a já referida cena do espelho para mostrar o que os olhos não conseguem ver. E usa um recurso radical, o da diacronia, nas duas fases do filme para apresentar a chaga moral de Luiza como um problema atemporal. Uma sutil, porém imprescindível, diferença entre a literatura e o cinema, mesmo num momento memorável do dialogo entre ambos.

Sinopse: Numa viagem de comboio para o Algarve, Macário (Ricardo Trepa) conta as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora. Mal entra para o seu primeiro emprego, um lugar de contador no armazém em Lisboa do seu tio Francisco (Diogo Dória), apaixona-se perdidamente pela moça loira que vive na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conhece-a e quer de imediato casar com ela. O tio discorda, despede-o e expulsa-o de casa. [Site Uol.com.br].

Trailer

Ficha Técnica: Nome: Singularidades de uma Rapariga Loura (Portugal, Espanha e França, 2009, 64 min). Direção: Manoel de Oliveira. Roteiro:Manoel de Oliveira sobre o texto original de Eça de Queiroz).  Baseado em um conto de Eça de Queirós “Singularidades de uma Rapariga Loura”.

Elenco: Ricardo Trêpa (Macário), Catarina Wallenstein (Luísa) e Diogo Dória (Francisco) com Júlia Buisel (D. Vilaça), Leonor Silveira (Senhora), Luis Miguel Cintra (Ele Mesmo), Glória De Matos (D. Sande), Filipe Vargas (Amigo), Rogério Samora (Chapéu De Palha), Miguel Guilherme (Faleiro), Rogério Vieira, Paulo Matos (Desconhecido), António Reis (Cónego Savedra) e Miguel Seabra (Notário).

Sobre Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli é graduado em História (UFPr, 1988) e mestre em Educação: história e filosofia da educação (PUC-SP, 1997). É professor universitário de graduação (desde 1994), de especialização latu senso (em mais 20 IES); de mestrado (em uma IES); atua na qualificação docente (desde 1994 e prestou serviços para mais 50 redes públicas e dezenas de escolas particulares em 18 estados); É consultor em gestão do trabalho pedagógico e proposições curriculares na Educação Básica (com serviços prestados para dezenas de instituições) e Superior (com trabalhos prestados para mais de 20 IES); É palestrante e conferencista (atuou em mais 300 eventos); consultor técnico de publicações didáticas (prestou serviços para mais de uma dezena de editoras) e de sistemas de ensino (prestou serviços para a maioria dos grandes empresas do país); É consultor pedagógico na área de Educação Corporativa (prestou serviços para empresas na área de refino de petróleo e montadoras automotivas). Publicou artigos, livros e materiais didáticos (na área de informática e história e geografia para Ensino Fundamental e médio). É cineasta. Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires Ferreira. Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino. Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes e Labo), Brichos: a floresta é nossa (Tecnokena) ainda em produção. Trabalhou como consultor técnico na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (2010). É assessor da diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Contato com a Autor email: marcos.cordiolli@gmail.com fone: 55 (41) 9962 5010 home page: cordiolli.wordpress.com twitter: twitter.com/marcoscordiolli facebook: marcos cordiolli

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