Por Marcos Cordiolli
No interior da Nordeste, em Pau Brasil, vive um casal feliz! É um Brasil de sertanejos, que o imaginário literário brasileiro aprendeu a ver como fortes pela capacidade de resiliência. É também uma felicidade ancorada no imaginário literário, o de Jorge Amado e suas mulheres matronas e fogosas. Nessa família, o marido provê tudo o que a esposa precisa, inclusive a liberdade para ter os homens que desejar. A esposa feliz e com inumeráveis amantes cuida com extremado carinho do filho e do marido. Essa ponte entre imaginários literários seria por si só uma grande virtude do filme Pau Brasil, o primeiro longa-metragem de Fernando Belens. Mas o filme vai além.
A felicidade do casal é angelical e assim é reiteradas vezes retratada ao longo do filme, tanto pelo marido como pela esposa. O marido em constantes demonstrações de afeto pela esposa, pelo filho, pela menina abandonada e pelo amigo que recolheu generosamente em sua casa… A esposa é generosa com as vizinhas, com o filho e até mesmo no tratamento afetivo com os amantes. É protagonista de uma seqüência muito poética, quando demonstra imensa generosidade ao conversar sobre a beleza do corpo feminino com as vizinhas adolescentes.
A felicidade como clichê. A felicidade do casal de Pau Brasil é um clichê. E todo clichê tem uma como contraparte, que neste filme é a intolerância. O casal feliz não percebe que o filho é vitima da pressão social provocada pela questionada moralidade da mãe. E tendo dificuldade para compreender o que é efetivamente a sua família, vive uma taciturna mudez. A felicidade parece sempre ter o seu preço traduzido em infelicidades e neste caso a conta está sendo paga pelo menino.
A intolerância, como clichê, vem do vizinho, autoimposto como uma espécie de guardião moral da comunidade. Regularmente, professa discursos inflamados de intolerância condenatória à família de felizes vizinhos. Mau e infeliz, ele verbalizar o ódio contido aos seus próprios – reprimidos e reprováveis – desejos. Ou então o ódio contra si mesmo, pela incapacidade de realizar as suas tentações. Com os olhos vidrados e enquanto rotineiramente esbraveja o seu ódio, mostra a insegurança daquele que em tudo vê pecado e, em nome da suposta moral, atira a primeira pedra… Mas não sabe que o objeto de sua intolerância está rondando a sua própria casa. E numa pequena narrativa paralela, as duas filhas do vizinho intolerante oscilam entre os seus contrapostos desejos – o carnal de uma e o celibato de outra.
Esse mote que compõe a base narrativa, apesar de insólito, é uma composição de clichês: o casal bom e feliz tem como antípoda um vizinho mau e infeliz que deseja intolerantemente e a todo custo destruir a felicidade alheia. Mas a narrativa de Pau Brasil conduz um conjunto de personagens consistentes numa trama dramática bem articulada que converte clichês em arquétipos universais. Essa é uma das forças peculiares do filme. O clichê de uma felicidade insólita de pessoas aparentemente sem mágoas, sem maldades e sem amarras morais, ordena – também – o seu clichê oposto. Por isso, talvez, o clichê funcione também ao expressar desejos humanos tanto para si como para o outro. Efetivamente, o cinema deve tributos ao clichê. E a humanidade, com seus demônios e fantasmas, ao cinema, por revelá-los tão profundamente.
Um passeio pelo tão próximo e tão distante. O desenrolar da narrativa traz outros elementos muito marcados da cultura nordestina: o colégio de freiras (limpo e ordenado no meio do sertão); as alegres brincadeiras de rua; o empório de secos e molhados; os clientes com tempo para uma conversa e que podem rapidamente produzir uma contenda de trágico desfecho; as relações sexuais clandestinas no cemitério; as convivências de vizinhança… Enfim, um passeio por um nordeste tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. (Um parêntese: os baianos, por sua sólida identidade cultural, não precisam promovê-la constantemente como nós de outras regiões do Brasil. E talvez por isso sejam universais ao cantar sua aldeia – “canta tua aldeia” -, assim como dizia Techov).
Um toque especial do filme é o personagem quase metafísico, inspirado nas tradições africanas, que salta pela narrativa, com toques de realismo fantástico, funcionando com um alter-ego coletivo, compondo ainda mais fortemente o quadro de baianidade do filme.
A produção competente faz jus à proposta estética com identidade cinematográfica eficaz. Vale ressaltar a competente montagem que garante o ritmo adequado para a complexa temporalidade da narrativa. O filme é também uma espécie de catálogo de atores baianos: um desfile de ótimos atores mesmo que em papéis de pouca exposição na tela.
Pau Brasil é um eficiente – e belo – exemplar de cinema brasileiro produzido na Bahia, como afirmou Belens no lançamento do filme. E um ótimo candidato a ser tornar um filme cult, com todos os méritos.
Sinopse
Em Pau Brasil, um pequeno e perdido povoado no coração do Brasil, as famílias de Joaquim e Nives moram lado a lado. Apesar de conviverem com a mesma estrutura perversa de opressão social, lidam com a vida de modo radicalmente diferente. A intolerância com o outro e a pobreza são os ingredientes desse drama trágico, onde cada personagem carrega suas contradições, coexistindo com mitos clássicos e afro-brasileiros. [Sinopse oficial]
Ficha técnica
Pau Brasil (Brasil / Alemanha, 2009, 35 mm, ) Produção: Direção: Fernando Belens. Roteiro: Fernando Belens e Dinorah do Valle. Montagem: André Bendocchi-Alves. Som: Nicolas Hallet. Fotografia: Hamilton Oliveira. Trilha Sonora: Bira Reis. Direção de Arte: Moacyr Gramacho. Produção Executiva: Luciano Floquet e Sylvia Abreu. Produção: Sylvia Abreu e Pola Ribeiro.
Direção: Fernando Belens. Roteiro: Fernando Belens e Dinorath Do Valle. Produção executiva: Luciano Floquet e Sylvia Abreu. Diretor assistente: Adler Paz. Direção de produção: Taissa Grisi. Direção de platô: Macarra Viana. Direção de elenco: Laura Bezerra. Produção de elenco: Elson Rosário. Direção de fotografia: Hamilton Oliveira. Direção de arte e figurino: Moacyr Gramacho. Montagem: Andre Bendocchi Alves. Música original: Bira Reis. Som direto: Nicolas Hallet. Edição de som: Andre Bendocchi Alves e João da Costa Pinto. Mixagem: Andre Bendocchi Alves.
Produção: Truque Produtora de Cinema e Stúdio Brasil. Co-Produção: 40o Filmproduktion. Produção Associada: Quanta e Teleimage. Produzido por: Sylvia Abreu e Pola Ribeiro. Co-produzido por: Andre Bendocchi-Alves e Claudia Enzmann.
Filme realizado com recurso de edital patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia.
O filme é Baseado em livro homônimo de Dinorah do Valle, premiado em concurso cubano da Casa de las Américas.
Elenco
Bertrand Duarte, Osvaldo Mil, Fernanda Paquelet, Arany Santana, Agnaldo Lopes, Ari Barata, Bira Freitas, Carlos Betão, Daniel Oliva, Edlo Mendes, Ednéas Santos, Edvard Passos, Fafá Pimentel, Fernanda Belling, Frieda Gutman, Humberto Dias, Irema Santos, Lúcio Tranchesi, Milena Flick, Psit Mota, Rita Brandi, Wilson Mello. Participação especial: Narcival Rubens, Ornellas Filho, Rita Assemany. Elenco infanto-juvenil:
Felipe Calicote, Tairine Ramos.
Publicações