O polonês Marian Litewka tem 71 anos e um milhão de quilômetros rodados. O curitibano José Carlos Chacorowski, 51 anos, soma 500 mil quilômetros só no Brasil. Ele já morou no Congo e circulou por lá. O campo-magrense Germano Nalepa, 52, manda multiplicar 13 anos por 50 mil quilômetros para ver o que dá: 650 mil quilômetros e não se fala mais nisso. Em comum – além do velocímetro digno de caminhoneiro velho de guerra –, Marian, José e Germano têm o fato de serem padres da Pastoral Rodoviária, uma das ações mais originais da Igreja Católica.
De três semanas para cá, o trabalho realizado por sacerdotes em rodovias e em postos de combustíveis deu de ganhar o noticiário. Primeiro foi o acidente envolvendo Adelir de Carli – o “padre voador” – numa busca insana de conseguir verbas para construir um abrigo para caminhoneiros em Paranaguá. Depois veio a estréia do longa-metragem O sal da terra, do diretor paranaense Elói Pires Ferreira, em cartaz nos cinemas da cidade. (Confira roteiro no Caderno G).
O primeiro assunto causa calafrios e a ressalva educada de que a Pastoral Rodoviária dos vicentinos – congregação religiosa à qual o trio pertence – não é a mesma pastoral encabeçada pelo padre De Carli. Quanto ao filme, é só alegria. Há cerca de dez anos, quando Eloy e o produtor J. Olímpio decidiram mostrar na tela grande o Brasil de beira de estrada, procuraram o convento Vicentino do Alto São Francisco em busca de Marian, pioneiro da Pastoral Rodoviária. A idéia era produzir um roteiro do ponto de vista de um padre, que viajasse de caminhão, celebrando missas em locais onde se depara com toda sorte de mazelas humanas.
Bateram na porta certa. Marian não só aceitou o desafio como forneceu vasta matéria-prima para o filme. Ao assistir a O sal da terra ele identificou várias passagens inspiradas livremente em suas memórias. O padre polonês passou nada menos do que 30 anos no asfalto. E ainda não se considera aposentado. Desde 2006, cuida das artroses e outras heranças deixadas pela má alimentação e pelas longas jornadas noite adentro. Se não puder pôr a mão novamente em seu caminhão Volkswagen – do tipo usado para entregas –, quer dar início à Pastoral dos Taxistas. Ou voltar para a Polônia natal.
De tão carismático, Marian costuma intimidar seus colegas de claustro, não importa a quilometragem. José Carlos Chacorowski, por exemplo, ficou tão famoso no ofício que acabou rebatizado de “padre Zé da Estrada”. A bordo de seu caminhão-capela, o religioso chegou aos rincões do país nos sete anos em que integrou o projeto. Mesmo assim, recomenda. “Foi um momento riquíssimo de minha vida sacerdotal. Mas o Marian é o nosso Pelé.” Padre Germano, idem. Ele conversou com a reportagem por telefone, do Posto Piquiri, em Pedro Gomes, em Mato Grosso do Sul, minutos antes de uma missa para pelo menos 160 caminhoneiros. “Tenho 13 anos de estrada e me inspirei no Marian.” O quarto padre da equipe, Miguel Staroen, 53 anos, celebrava no mesmo momento no Posto Pegoraro, em Coxim, também em Mato Grosso do Sul. Juntos, os dois presbíteros rodoviários rezam cerca de 600 missas por ano em postos de combustíveis.
A história de Marian Litewka mereceria um novo filme de Pires Ferreira. Ainda menino, na Cracóvia de 1949, foi coroinha de Karol Wojtyla – o futuro Papa João Paulo II. Mais de uma vez, ao contar esse episódio, houve quem desdenhasse. Mesmo assim, em nome dos velhos tempos, o Papa recebeu Marian na Cúria, por ocasião de sua visita a Curitiba, em 1980. Em 1986, na Itália, o padre tomou café com o pontífice em Castel Gandolfo. Os caminhoneiros não iam acreditar. Mas pouco importa. O coração de Marian está para a Pastoral Rodoviária como a cruz para a estrada.
A origem da pastoral foi uma leitura de juventude, um romance de Bruce Marshall em que havia um padre que rezava missas num mercado. Em 1962, ao ser mandado para o Brasil, o recém-ordenado Litewka tinha planos de fazer algo assim, diferente, numa nação em que julgava haver apenas samba e mato. Ao chegar, viu que poderia ser ainda pior. Sua viagem para o Paraná esbarrou numa queda de barreira na BR-116, o que o obrigou a uma maratona dantesca pela Estrada da Ribeira. “Para ajudar, eu não falava uma palavra em português. Imagine o primeiro sermão que fiz, decorado. As pessoas vinham me dizer: ‘Padre, como o senhor fala bem’”, diverte-se. A língua portuguesa acabou sendo aprendida com a leitura da revista Seleções do Reader’s Digest.
Foi justamente a dificuldade com o idioma que atrasou os planos missionários do polonês. “Fui trabalhar em Mafra, onde passava o único asfalto para o Sul. Sabia de um local onde os caminhoneiros paravam. Mas me faltava a linguagem do colo da mãe para poder me comunicar com eles.” Anos depois, desafiado por dom Geraldo Pellanda, então bispo de Ponta Grossa, começou a esboçar seu projeto. Em março de 1976, sem saber muito bem como dar conta do recado, Marian fez a primeira missão rodoviária, cumprindo a rota Imbituva – Cascavel. “Eu mal tinha coragem de falar com as pessoas nos postos. Achei que não ia dar certo.”
Seus superiores também. Dizia-se que estrada era lugar de prostituta e de polícia. Agora ia ser também de padre. “Três pês”, brinca Marian. Mas ele foi à forra mesmo assim. Em agosto daquele mesmo ano foi a vez de pregar em Paranaguá. Na hora da missa, havia sete pessoas: um motorista de Irati, um taxista local e a mulher, duas devotas, o vigário da Igreja do Rocio e o próprio Marian. “Quase larguei mão. A solidão é o pano de fundo de toda essa história. Senti na pele como é a vida dos motoristas. Eles saem de casa sem saber se vão sobreviver. E se sentem desvalorizados, vistos como mulherengos e malandros de estrada”, conta, sobre os profissionais que, segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT – leia nesta página) respondem por 7% do PIB do país.
Com a prática, postos das BRs, Rodovia do Café, estradas do Oeste, Sudoeste foram lotando. Em 1981, o religioso adotou o caminhão-capela. Tempos depois, Marian reuniu dois mil fiéis no Posto Branco, em Dois Vizinhos, Sudeste do Paraná. O coroinha de João Paulo II tinha virado celebridade de um Brasil que poucos conhecem.
* O título da matéria é uma frase de pára-choque de caminhão
Publicação Original: Gazeta do Povo